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CBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Número: 44.3 - 14 Artigos

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http://www.dx.doi.org/10.1590/0100-69912017003014

Editorial

A cirurgia e a internet

Surgery and the internet

Felipe Carvalho Victer, TCBC-RJ

Hospital Universitário Pedro Ernesto, Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, RJ, Brasil

A internet, há alguns anos, passou a ser a ferramenta inicial de busca para procura de artigos de atualização ou de revisão. Inicialmente utilizada apenas como forma de referência bibliográfica, obrigava a uma posterior excursão às bibliotecas em busca das revistas físicas para a realização da leitura. Ultimamente, porém, a maioria das revistas, inclusive a Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões, disponibiliza seu conteúdo online e, desta forma, consegue alcançar um número ainda maior de leitores, e não só da área da saúde.

As nossas práticas médicas diárias, como trabalho, estudo e até a relação médico-paciente, acabaram sendo influenciadas pela internet. Não é infrequente que pacientes cheguem nas consultas com uma lista de questionamentos, gerados após pesquisas sobre a sua doença. Também pela internet, muitos pacientes buscam os profissionais que melhor se encaixam em seu perfil, sem as tradicionais indicações de outro médico, de outros pacientes ou de pessoas conhecidas.

Por outro lado, na busca por pacientes, alguns médicos tornam a sua vida em um verdadeiro reality show e postam cada passo de suas atividades realizadas ao longo dos dias, com ênfase em aulas, congressos, cursos e outras atividades relacionadas à sua prática clínica. Em alguns momentos extrapolam o bom senso e expõem situações capazes de gerar no público leigo falsas esperanças, com promessas inalcançáveis ou resultados de sucesso, que não são usuais para determinadas doenças. Foi neste sentido que o Conselho Federal de Medicina editou a Resolução número 1974/2011 para nortear e evitar abusos de divulgação médica nas diversas mídias1. Curiosamente, porém, os próprios pacientes se organizam em grupos de discussão de casos clínicos ou em blogs específicos para determinadas doenças. E o interessante é que alguns destes blogs são administrados por pacientes que discutem entre si as “melhores” condutas médicas para os casos em questão, baseados em experiências pessoais e, claro, nas informações da internet.

A vídeo-laparoscopia, por sua vez, não trouxe apenas o benefício inerente ao método para o paciente, mas também a facilidade de registro fidedigno da cirurgia realizada. Inicialmente este registro era realizado em fitas de VHS que, além de ocuparem grande espaço físico, tinha edição trabalhosa e demorada. Talvez, devido a esta dificuldade de edição, existisse um número restrito de procedimentos gravados, e estes, eram exibidos nas concorridas salas de exposição de vídeos dos congressos de cirurgia. De forma contínua, ocorreu a evolução dos computadores e de softwares de edição de vídeos, o que resultou na simplificação dos processos, com resultados ainda melhores para o espectador. Também de forma concomitante, o acesso à internet de alta velocidade e às plataformas para divulgação de vídeos se popularizou e permitiu que médicos trocassem experiências a partir da visualização de seus procedimentos, assim como os pacientes passaram a ter acesso a estes vídeos cirúrgicos.

É neste contexto que a relação do cirurgião com a internet se integrou ainda mais porque, além da pesquisa acadêmica de artigos, o cirurgião passou a poder atualizar sua expertise com vídeos das cirurgias que pretende realizar. E esta prática se tornou corriqueira não somente pelo residente antes de operar a sua primeira colecistectomia, tutorada por seu preceptor, mas também por cirurgiões experientes, com a finalidade de refinar algum detalhe técnico da sua prática. Não é por menos que diversos trabalhos sobre o tema estão sendo publicados em diferentes revistas, em que procuram analisar a influência da internet, não só sobre os cirurgiões já formados, como sobre aqueles em formação2,3.

Por mais detalhada que seja a descrição de uma técnica cirúrgica, a mesma não se compara com o registro em vídeo. Como ressaltado por O’Leary et al. em seu singular artigo, o uso da internet como ferramenta de ensino, proporciona fácil acesso, bom custo-efetividade e possibilidade de aprendizado independente4. Ainda neste artigo, foi analisada a divulgação pelo YouTube e pelo iTunes das sessões do Departamento de Cirurgia da sua instituição, que obtiveram um número considerável de visualizações, distribuídos globalmente.

Os sites de divulgação de vídeos podem ser visualizados por inúmeras pessoas que postam diretamente seu comentário. Infelizmente, mesmo nos grupos de acesso restrito, eventualmente se nota certa falta de compromisso com a realidade, tanto pelos comentários quanto pelos vídeos propriamente ditos, estimulados, talvez, pela impessoalidade criada pela rede. A facilidade destas postagens também permite que sejam divulgados materiais sem rigor científico, muitas vezes disseminados publicamente de forma incorreta.

O uso da internet não pode ser ignorado pelo cirurgião, que tem a oportunidade de se aprimorar com esta ferramenta. É neste cenário que o Colégio Brasileiro de Cirurgiões e outras sociedades de especialidade promovem ações para proporcionar aos seus membros recursos que realmente visam a um aprimoramento técnico e científico. E é com este intuito que almejo, cada vez mais, que as “chancelas” das Sociedades de Especialidade estejam estampadas nos sites que verdadeiramente possuam compromisso ético e com a educação médica continuada.

 

REFERÊNCIAS

1. Conselho Federal de Medicina (Brasil). Resolução no. 1974, de 14 de julho de 2011. Estabelece os critérios norteadores da propaganda em Medicina, conceituando os anúncios, a divulgação de assuntos médicos, o sensacionalismo, a autopromoção e as proibições referentes à matéria. Diário Oficial da União 19 ago 2011; Seção 1. Disponível em: http://www.portalmedico.org.br/resolucoes/CFM/2011/1974_2011.htm

2. Jayakumar N, Brunckhorst O, Dasgupta P, Khan MS, Ahmed K. e-Learning in surgical education: a systematic review; J Surg Educ. 2015;72(6):1145-57.

3. Maertens H, Madani A, Landry T, Vermassen F, Van Herzeele I, Aggarwal R. Systematic review of e-learning for surgical training. Br J Surg. 2016;103(11):1428-37.

4. O’Leary DP, Corrigan MA, McHugh SM, Hill AD, Redmond HP. From theater to the world wide web--a new online era for surgical education. J Surg Educ. 2012;69(4):483-6.

 

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