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CBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Número: 45.1 - 14 Artigos; e1347

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http://www.dx.doi.org/10.1590/0100-6991e-20181347

Artigo Original

Aplicação dos escores POSSUM e P-POSSUM como preditores de morbimortalidade em cirurgia colorretal

The applicability of POSSUM and P-POSSUM scores as predictors of morbidity and mortality in colorectal surgery

Maria Emília Carvalho-e-Carvalho; Fábio Lopes de-Queiroz; Breno Xaia Martins-da-Costa; Marcelo Giusti Werneck-Côrtes; Vinícius Pires-Rodrigues

Hospital Felício Rocho, Clínica de Coloproctologia, Belo Horizonte, MG, Brasil

Endereço para correspondência

Maria Emília Carvalho e Carvalho
E-mail: mariaeccarvalho@gmail.com

Recebido em 11/07/2017
Aceito em 21/09/2017

Fonte de financiamento: nenhuma.

Conflito de interesse: nenhum.

Resumo

OBJETIVO: aplicar os escores POSSUM e P-POSSUM como ferramenta para predizer morbimortalidade em cirurgia colorretal.
MÉTODOS: estudo de coorte prospectivo de 551 pacientes submetidos à cirurgia colorretal em um hospital terciário de referência em cirurgia colorretal no Brasil. Os pacientes foram agrupados em categorias de risco pré-estabelecidas para comparação entre as taxas de morbimortalidade esperada e observada pelo POSSUM e P-POSSUM.
RESULTADOS: na análise de morbidade pelo POSSUM, a morbidade geral esperada foi significativamente maior que a observada (39,2% x 15,6%). O mesmo ocorreu com os pacientes agrupados na categoria II (28,9% x 10,5) e na categoria III (64,6% x 24,5%). Na categoria I, a morbidade esperada e observada foi semelhante (13,7% x 9,1%). Com relação à avaliação da mortalidade, esta foi estatisticamente maior do que a observada, nos pacientes da categoria III, e no total dos pacientes (11,3% x 5,6%). Nas categorias I e II observou-se o mesmo padrão da categoria III, porém sem significância estatística. Ao avaliar a mortalidade pelo escore P-POSSUM, a mortalidade geral esperada e observada foi semelhante (5,8% x 5,6%). Dos 31 pacientes que morreram, 20,2% foram submetidos a procedimentos de urgência e a sepse foi a principal causa.
CONCLUSÃO: o escore P-POSSUM foi uma ferramenta acurada para predizer mortalidade podendo ser utilizado com segurança neste perfil populacional, ao contrário do escore POSSUM.

Palavras-chave: Indicadores de Morbimortalidade. Cirurgia Colorretal. Mortalidade. Morbidade.

INTRODUÇÃO

A auditoria periódica de um serviço de cirurgia é essencial para se realizar uma avaliação crítica e para se obter ganho na qualidade. Com este objetivo utilizam-se escores para predição de morbimortalidade pós-operatórias. O resultado desta auditoria permite melhor previsão individual de risco, melhor planejamento terapêutico e alocação de recursos, além de possibilitar uma auditoria comparativa entre populações de diferentes áreas geográficas com menor risco de falhas1-4.

Inúmeros escores para predição de morbimortalidade estão disponíveis (ASA, APACHE, SAPS II). No entanto, o sistema POSSUM (Physiologic and Operative Severity Score for the enUmeration of Mortality and Morbidity) tem sido comumente recomendado como o apropriado para a prática cirúrgica2,4-6. O modelo POSSUM, descrito pela primeira vez em 1991, por Copeland et al.4 utilizava, originalmente 48 variáveis fisiológicas e 14 variáveis cirúrgicas.  Após técnicas de análise multivariada, estes números foram reduzidos a 12 variáveis fisiológicas e seis variáveis cirúrgicas. O sistema procura predizer morbimortalidade nos 30 primeiros dias pós-operatórios e permite comparar os resultado dentro da própria instituição ao longo do tempo ou realizar uma análise comparativa transversal com outras instituições2,4. Na avaliação da morbidade são levadas em conta complicações pós-operatórias pré-determinadas, subdividas em infecciosas (infecção subcutânea, abscesso abdominal, fístula anastomótica, pneumonia e sepse) e não infecciosas (eventos cardiológicos e tromboembolismo pulmonar)4.

Esse método de avaliação de resultados foi aplicado a um grande número de pacientes, mas foi observado que o sistema  superestimava a mortalidade, especialmente para os pacientes de baixo risco. Diante disso, foi desenvolvido o escore P-POSSUM (Portsmouth Physiologic and Operative Severity Score for the enUmeration of Mortality and Morbidity) que, apesar de utilizar as mesmas variáveis, é capaz de diminuir a superestimava calculada pelo POSSUM3,7. O P-POSSUM é calculado adicionando-se uma equação de regressão ao cálculo do POSSUM.

A utilização do sistema POSSUM/P-POSSUM foi adotada pela Clínica de Coloproctologia do Hospital Felício Rocho em janeiro de 2011. O objetivo deste estudo foi avaliar a utilização do sistema POSSUM como ferramenta para predizer morbimortalidade em cirurgia colorretal através da comparação dos valores de POSSUM e P-POSSUM esperados e observados.

 

MÉTODOS

Estudo prospectivo, conduzido pela Clínica de Coloproctologia do Hospital Felício Rocho, Belo Horizonte, MG, Brasil, seguiu as normas governamentais brasileiras de pesquisa em seres humanos e foi aprovado pelo Comitê de Ética e Pesquisa (CEP) da instituição sob o número 43647815.1.0000.5125.

Foram incluídos 551 pacientes submetidos a cirurgias colorretais entre janeiro de 2011 e junho de 2014. Protocolos para seguimento clínico, específicos de cada doença, foram preenchidos pela equipe médica, incluindo os dados relativos à morbidade e mortalidade pós-operatórias, e posteriormente armazenados no banco de dados mantido pela Clínica de Coloproctologia. Após o procedimento cirúrgico eram calculados o POSSUM e o P-POSSUM do paciente através de uma calculadora de risco que utiliza a equação matemática do sistema POSSUM, criada em formato Microsoft Excel. No banco de dados do Serviço, eram inseridos os dados demográficos, os dados referentes ao procedimento cirúrgico e os respectivos valores POSSUM e P-POSSUM calculados.

Para análise da morbidade, os 551 pacientes foram  divididos em três categorias de morbidade estimada pelo POSSUM, validadas em estudos prévios8. Na análise da mortalidade  pelo POSSUM e P-POSSUM, os pacientes incluídos no estudo foram agrupados em três e quatro categorias de mortalidade estimada, respectivamente (Tabela 1).

 

 

Para realização da análise estatística foi calculado a média e o desvio padrão (DP) da morbimortalidade esperada. O intervalo de confiança (IC 95%) de cada categoria foi calculado para análise de morbimortalidade permitindo análise e comparação entre os achados observados e esperados. O valor p<0,05 foi considerado significativamente estatístico. A análise estatística foi realizada utilizando o SPSS Statistics para Windows, versão 19.0 (IBM Corp).

 

RESULTADOS

Com relação à modalidade dos procedimentos, 83% (457) dos pacientes foram submetidos a procedimentos eletivos e 17% a procedimentos de urgência. Duzentos e cinquenta e sete (46,6%) pacientes foram submetidos a procedimentos laparoscópicos, com taxa de conversão de 6,6% (Tabela 2).

 

 

Na análise de morbidade pelo POSSUM, a morbidade total esperada foi de 39,2%, sendo 13,7% na categoria I, 28,9% na categoria II e 64,6% na categoria III. Na tabela 3 podemos verificar que a morbidade observada foi menor que a prevista quando avaliamos a morbidade geral e nas categorias II e III (p<0,05). A morbidade dos pacientes da categoria I foi menor que a esperada, mas sem significância estatística (p>0,05).

 

 

Na avaliação da mortalidade pelo escore POSSUM, conforme demonstrado na tabela 4, a mortalidade geral observada (5,6%) e a dos pacientes da categoria III (15%), foi significativamente menor que a esperada pelo sistema POSSSUM (p<0,05). E na análise das categorias I e II, observamos uma mortalidade menor que a esperada, mas sem significância estatística (I- 0,8% x 3%; II- 1,6% x 6,9%; p>0,05).

 

 

Ao avaliar a mortalidade pelo P-POSSUM, a mortalidade geral esperada não foi diferente da mortalidade observada (5,8% x 5,6%; p>0,05). A tabela 5 evidencia que na análise de cada uma das quatro categorias separadamente, não houve diferença  entre a mortalidade esperada e a mortalidade observada.

 

 

A mortalidade geral observada foi de 5,62%. Dos pacientes que evoluíram para o óbito, 19 morreram após cirurgia de urgência e 12 após procedimentos eletivos, uma taxa de mortalidade de 20,2% e 2,62%, respectivamente. A sepse foi a principal causa de óbito em 67,7% dos pacientes.

 

DISCUSSÃO

Índices de morbimortalidade pós-operatória são medidas objetivas de resultados que podem ser utilizados para modificação de conduta e avaliar a qualidade do atendimento. Estudos prévios evidenciaram o papel importante do sistema POSSUM como escore para predizer morbimortalidade pós cirúrgica5,9,10. Uma revisão sistemática da literatura, que avaliou o POSSUM e suas variantes, em pacientes submetidos à cirurgia para tratamento de câncer colorretal, evidenciou que o escore POSSUM foi capaz de predizer morbidade de forma fidedigna e o P- POSSUM foi o mais acurado para predizer mortalidade, mesmo quando comparado com o CR-POSSUM1. Em seu estudo prospectivo, Chatterjee et al.10 avaliaram 50 pacientes com peritonite perfurativa. O escore POSSUM mostrou-se um bom indicador de desfecho pós-operatório, mas as limitações do estudo foram o tamanho da amostra e a avaliação da viabilidade do uso do escore de forma fidedigna em pacientes de alto risco e procedimentos de urgência, não podendo ser extrapolado para a população de baixo risco. Oomen et al.11 compararam os diferentes escores POSSUM em 241 pacientes submetidos à ressecções para tumor de sigmoide ou doença diverticular, e não observou diferença de mortalidade, mostrando não haver nenhum preditor de mortalidade específico de cada doença.

No presente estudo o escore POSSUM foi capaz de predizer morbimortalidade com acurácia apenas nos pacientes com baixo risco de complicações e menor risco de mortalidade. Nos pacientes com alto risco de morbimortalidade, houve uma superestimava, tornando a ferramenta falha e inadequada para avaliação deste perfil populacional. Por outro lado, o P-POSSUM foi capaz de predizer morbimortalidade de forma fidedigna quando realizado avaliação por categorias ou mortalidade geral, mostrando-se um índice seguro e acurado. Com relação aos óbitos, as taxas observadas estão em consonância com os dados da literatura. Dos 31 óbitos, a maioria foi secundária a procedimentos de urgência e em pacientes que possuíam morbidade elevada. A implantação de um sistema de avaliação de resultados para análise da taxa de mortalidade como o P-POSSUM em nosso Serviço foi de grande valia, pois permitiu a estratificação do risco. Com isso, foi possível a avaliação temporal dos resultados, identificando-se claramente as situações em que a alocação de recursos deveria ser realizada para a melhoria da qualidade. Além disso, permitiu a  implantação de medidas corretivas em grupos específicos visando à melhoria dos resultados, com intervenções pontuais e direcionadas.

Os escores POSSUM e P-POSSUM foram desenvolvidos baseando-se em procedimentos cirúrgicos diversos. Apesar de estudos evidenciarem o valor do escore POSSUM na cirurgia para o câncer colorretal1,12 , Tekkis et al.13 desenvolveram a variação CR-POSSUM (Colorectal Possum) que utiliza menos parâmetros, facilitando o cálculo e diminuindo as variações. O CR-POSSUM avalia os parâmetros de idade, sistema cardiovascular, pressão sistólica, frequência de pulso, hemoglobina e ureia, nas variáveis fisiológicas, e o caráter cirúrgico, contaminação peritoneal, status de malignidade e porte cirúrgico, nas variáveis cirúrgicas. Um estudo que comparou o POSSUM e o CR-POSSUM como preditores de mortalidade em 120 pacientes submetidos à ressecção cirúrgica para tratamento do câncer colorretal, mostrou que o P-POSSUM, apesar de superestimar de forma não significativa a mortalidade em 25%, pode ser utilizado para predizer mortalidade. Mas quando comparado ao CR-POSSUM, essa variante foi mais acurada14. Outros dois estudos prospectivos avaliaram a utilização do escore POSSUM para predizer morbimortalidade em cirurgias colorretais em 304 e 899 pacientes15,16. Em ambos os trabalhos, apenas o CR-POSSUM foi acurado em predizer mortalidade enquanto o POSSUM superestimou morbimortalidade. Já o P-POSSUM superestimou a mortalidade no primeiro estudo e subestimou o risco de morrer após procedimento cirúrgico no outro16. Corroborando com esses achados, Constantinides et al.17 ao avaliarem o escore POSSUM em 324 pacientes com diverticulite complicada, verificou que o CR-POSSUM foi capaz de predizer os resultados de forma mais fidedigna que o P-POSSUM.

Nosso estudo tem como limitações a amostra estudada, visto que, por se tratar de hospital referência em alta complexidade, lida com pacientes com quadros clínicos mais complexos, esperando-se, consequentemente, que os mesmos tenham um potencial maior de complicações e óbitos associados. O P-POSSUM mostrou-se uma ferramenta acurada para essa população de alto risco não sendo possível extrapolar a utilização do mesmo de forma segura em pacientes de baixo risco. A coleta de dados por mais de um cirurgião do Serviço foi outro fator limitante do estudo, pois permite que dados subjetivos utilizados no cálculo do escore, como perda estimada de sangue, sejam interpretados de forma diferente, levando a variações  no resultado final do escore.

A análise da população de forma estratificada, por idade e por doenças, apesar de estudo descrito anteriormente não ter evidenciado diferença estatística na morbimortalidade doença-específica12, poderia permitir uma avaliação minuciosa, principalmente no que diz respeito à morbidade, possibilitando a realização de intervenções direcionadas.

A avaliação do P-POSSUM numa população de baixo risco faz-se necessária, para validá-lo como adequado para uso de forma generalizada nos pacientes submetidos à cirurgias colorretais na instituição. Com relação à morbidade, novos estudos são necessários para validar um escore capaz de predizer morbidade de forma acurada tanto em pacientes de baixo quanto de alto risco. Assim como em alguns estudos prévios14-16, a utilização do CR-POSSUM pode ser mais adequada ao perfil da população estudada, mas outros estudos são necessários para validar a adoção deste escore.

Os dados apresentados mostram que o escore P-POSSUM foi capaz de predizer mortalidade de forma acurada, mas a população avaliada era composta por pacientes de alto risco. Este escore pode ser utilizado  com segurança nessa população específica, permitindo melhorias nas rotinas pós-operatórias e na realização de auditoria interna no que diz respeito à mortalidade.

 

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