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CBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Número: 45.1 - 14 Artigos; e1430

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http://www.dx.doi.org/10.1590/0100-6991e-20181430

Artigo Original

Perfil dos pacientes com gangrena de Fournier e sua evolução clínica

Profile of patients with Fournier’s gangrene and their clinical evolution

Djoney Rafael dos-Santos1; Ulisses Luiz Tasca Roman1; André Pereira Westphalen, TCBC-PR1; Keli Lovison2; Fernando Antonio C. Spencer Neto, TCBC-PR1

1. Universidade Estadual do Oeste do Paraná, Cascavel, PR, Brasil
2. Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP, Brasil

Endereço para correspondência

Djoney Rafael dos-Santos
E-mail: djoneysantos@hotmail.com / djoney.com@gmail.com

Recebido em 17/08/2017
Aceito em 05/10/2017

Fonte de financiamento: nenhum.

Conflito de interesse: nenhum.

Resumo

OBJETIVO: analisar o perfil dos pacientes com gangrena de Fournier tratados em um hospital público terciário do oeste do Paraná.
MÉTODOS: estudo transversal, retrospectivo e descritivo de pacientes portadores de gangrena de Fournier atendidos no período de janeiro de 2012 a novembro de 2016.
RESULTADOS: foram tratados 40 pacientes com gangrena de Fournier no período: 29 (72,5%) homens e 11 (27,5%) mulheres. A média de idade foi de 51,7±16,3 anos. A média de tempo de evolução da doença, do sintoma inicial até a internação, foi de 10,5±1,2 dias. Todos os pacientes apresentaram algum sinal clínico como dor, abaulamento, eritema, entre outros, e 38 (95%) tinham comorbidades associadas, sendo as mais comuns diabetes mellitus tipo 2 e hipertensão arterial sistêmica. A maioria (30 pacientes -75%) apresentava como etiologia provável abscesso perianal. Todos os pacientes foram submetidos à antibioticoterapia e tratamento cirúrgico com média de 1,8±1,1 cirurgias por paciente. Nove (22,5%) pacientes morreram. Houve forte correlação entre a presença de sepse na admissão e mortalidade.
CONCLUSÃO: pacientes portadores de gangrena de Fournier, nesta casuística, apresentavam longo tempo de doença e elevada prevalência de comorbidades com alto índice de mortalidade.

Palavras-chave: Gangrena de Fournier. Fasciíte Necrosante/epidemiologia.

INTRODUÇÃO

Gangrena de Fournier (GF) é uma doença infecciosa grave de partes moles, de rápida progressão, que acomete a região genital e áreas adjacentes, caracterizada por intensa destruição tissular, envolvendo o tecido subcutâneo e a fáscia. Também conhecida como gangrena escrotal, celulite necrosante sinérgica, gangrena sinérgica, gangrena idiopática e gangrena fulminante, trata-se de fascite necrotizante da região perineal1,2. Quando não tratada precocemente pode evoluir para sepse e falência múltipla de órgãos3,4. Assim, o diagnóstico precoce,  juntamente com o tratamento adequado e agressivo são fatores determinantes no prognóstico do paciente. Ocorre predominantemente no sexo masculino, entre a terceira e a sexta décadas de vida, sendo comum a presença de comorbidades associadas como doenças renais e hepáticas, imunossupressão, síndrome da imunodeficiência humana adquirida (SIDA), doenças crônicas como diabetes mellitus (DM), desnutrição, entre outras5,6. Apresenta altos índices de mortalidade, que variam de 13 a 30,8% no Brasil1,6,7. Representa um problema de saúde pública, tendo em vista sua incidência, prevalência, mortalidade e os altos custos do tratamento e reabilitação8.

Diante da gravidade e escassez de dados sobre a parcela da população que apresenta GF no Brasil, buscou-se analisar o perfil dos pacientes, seu tratamento e evolução clínica em um hospital universitário do oeste do Paraná.

 

MÉTODOS

Este projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE) no campus de Cascavel/PR, sob o número 56997516.1.0000.0107. Trata-se de estudo transversal, retrospectivo e descritivo baseado na análise de prontuários físicos e eletrônicos de pacientes portadores de GF tratados no Hospital Universitário do Oeste do Paraná - HUOP/Cascavel - PR, de janeiro de 2012 a novembro de 2016.

Os pacientes foram selecionados de acordo com os critérios de inclusão: pacientes com diagnóstico de GF internados no HUOP no período de janeiro de 2012 a novembro de 2016 e maiores de 18 anos de idade. Os dados dos prontuários físico e eletrônicos foram registrados em ficha de coleta de dados com informações sobre demografia, apresentação clínica e laboratorial, tratamento instituído, evolução, complicações e mortalidade.

As variáveis numéricas foram testadas de acordo com a distribuição de normalidade pelo teste de Shapiro-Wilk e, por apresentarem distribuição normal, foram apresentadas em média e desvio padrão. Para as correlações propostas de acordo com o objetivo do estudo, foi empregado o teste R de Pearson, sendo considerado 0,9, para mais ou para menos, uma correlação muito forte, 0,7 a 0,9 positivo ou negativo uma correlação forte e 0,5 a 0,7 positivo ou negativo uma correlação moderada. Para as variáveis qualitativas foram realizadas distribuições de frequências e apresentadas em números absolutos e porcentagem. O software empregado foi o SPSS® Versão 22.0. A apresentação das informações obtidas dos prontuários foi realizada através de tabelas.

 

RESULTADOS

A amostra foi composta por 40 pacientes, 29 (72,5%) do sexo masculino e 11 (27,5%) do sexo feminino. A média de idade foi de 51,7±16,3 anos. A média do tempo de internação foi de 19,6±14,7 dias. Os principais sinais clínicos podem ser vistos na tabela 1.

 

 

A média de tempo de evolução da doença, do sintoma inicial até a internação, foi de 10,5±1,2 dias, sendo que nove pacientes (22,5%) apresentaram sinais de sepse à admissão. As principais comorbidades estão descritas na tabela 2. Dois pacientes apenas não relataram comorbidades.

 

 

A etiologia provável da GF foi identificada em todos os pacientes, sendo que 30 (75%) pacientes tinham história e exame compatíveis com abcesso perianal, quatro (10%) trauma, três (7,5%) cirurgias perineais, dois (5%) doenças urológicas e um (2,5%) mordedura de animal.

Todos os pacientes foram submetidos à antibioticoterapia e desbridamento cirúrgico, além de tratamento concomitante de comorbidades. Foram realizados 72 procedimentos cirúrgicos com média de 1,8±1,1 procedimentos por paciente. Destes, em quatro pacientes (10%) foi realizada colostomia para controle de contaminação fecal e em dois (5%) cistostomia. Em sete (17,5%) pacientes foram realizadas cirurgias reparadoras no mesmo internamento após controle da infecção.

Oito (20%) pacientes permaneceram internados na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Nove (22,5%) pacientes morreram. Todos apresentavam sinais e sintomas de sepse à admissão (r=0,93**). Os demais pacientes receberam alta e foram acompanhados no ambulatório de feridas do HUOP.

Não houve correlação entre presença sepse na admissão com tempo de evolução da doença, idade ou presença de comorbidades. Não houve correlação entre DM e presença de abcesso perianal como provável etiologia da GF. A correlação entre a idade, o tempo de evolução da doença, a presença de comorbidades, a permanência na UTI, o abcesso perineal como etiologia e o número de cirurgias por paciente, com a mortalidade, estão descritos na tabela 3.

 

 

DISCUSSÃO

Este estudo mostrou que os pacientes, em sua totalidade, apresentavam sintomas locais, comorbidades associadas, longo tempo de doença antes da admissão hospitalar e abscesso perianal como etiologia mais comum. O conhecimento destes fatores pode levar ao reconhecimento mais precoce dos pacientes de risco, com diagnóstico mais precoce da doença e redução da morbidade e da mortalidade associadas.

A GF é uma fascite necrotisante que tem origem na região perineal e que pode se estender para parede abdominal e torácica. Pode se originar no escroto e no pênis em homens, e na vulva e na virilha em mulheres9,10. Também pode estar associada a ferimentos, queimaduras, abrasões, lacerações, contusões, mordeduras de animais, picadas de insetos, injeções subcutâneas e intravenosas2. Em nosso estudo, a etiologia da GF esteve predominantemente associada ao abcesso perianal com abordagem tardia ou inadequada. É possível que o diagnóstico precoce, associado à abordagem cirúrgica imediata, pudesse evitar que alguns destes pacientes evoluíssem para GF.

No Brasil, o sexo masculino (10:1) tem alta prevalência, mas a doença pode acometer mulheres e crianças6,11. Pode incidir em todas as faixas etárias, com média ao redor dos 50 anos12. Neste estudo, 72,5% eram do sexo masculino e 27,5% do sexo feminino, e em ambos os sexos a média de idade foi de 51 anos.

Com relação à sua fisiopatologia, a infecção bacteriana leva a uma endarterite obliterante, seguida de isquemia e trombose dos vasos subcutâneos, que resultam em necrose da pele e comprometimento da fáscia subjacente13,14. Segundo Santos et al.2 podem ser encontrados sinais e sintomas como desconforto local com sensação dolorosa, febre elevada, mal-estar, sudorese, edema aparentemente sem lesão, eritema e formação de bolhas, corroborando com os achados encontrados no presente estudo.

Para o tratamento clínico são utilizados antibióticos de amplo espectro, com cobertura para micro-organismos aeróbios gram-positivos e gram-negativos, assim como anaeróbios. O procedimento cirúrgico é indispensável2,15 e consiste em desbridamento amplo dos tecidos desvitalizados, frequentemente com necessidade de múltiplas reabordagens. Pacientes não submetidos a este procedimento têm mortalidade de 100%1,16. Todos os pacientes realizaram tratamento clínico com antibioticoterapia e desbridamento cirúrgico como linha inicial de tratamento.

Em estudo realizado por Dornelas et al.1 foi utilizado tratamento reparador em 23 pacientes, com técnicas simples e eficientes para cada caso ou área, após o controle efetivo da infecção. Assim, pequenas perdas foram tratadas com sutura borda a borda ou autoenxertia de pele. Em nosso estudo, sete (17,5%) pacientes realizaram cirurgia reparadora, principalmente por aproximação primária, visando a diminuir área cruenta, a facilitar os curativos e a alta precoce. Uma vez que não foram observados efeitos adversos nas cirurgias reconstrutoras, esta vem sendo considerada, em nosso Serviço, como parte do fluxograma terapêutico destes pacientes, embora haja carência de evidência definitiva de benefício.

Nesse estudo, o tempo médio de internação foi superior a 19 dias e 22,5% dos pacientes morreram. Houve forte correlação entre sepse à admissão e mortalidade. Apesar de todos os avanços terapêuticos atuais, a GF continua apresentando internação prolongada e altos índices de mortalidade17,18.

Pudemos verificar com este estudo que a maioria dos pacientes com diagnóstico de GF tratados em serviço público terciário do oeste do Paraná tem diagnóstico tardio e comorbidades, particularmente DM tipo II, tendo abcesso perianal como fator etiológico. Estes pacientes apresentaram longo internamento e elevada mortalidade. Estes dados sugerem a necessidade de melhorias nos serviços de urgência, com vistas ao diagnóstico e tratamento mais precoces da doença, a fim de reduzir sua morbidade e mortalidade.

 

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