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CBC - Revista do Colégio Brasileiro de Cirurgiões - Journal of the Brazilian College of Surgeons

Número: 45.2 - 14 Artigos; e1609

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http://www.dx.doi.org/10.1590/0100-6991e-20181609

Artigo de Revisão

Transplante de microbiota fecal no tratamento da infecção por Clostridium difficile: estado da arte e revisão de literatura

Fecal microbiota transplantation in the treatment of Clostridium difficile infection: state of the art and literature review

Bruno Amantini Messias, TCBC-SP.2; Bárbara Freitas Franchi1; Pedro Henrique Pontes1; Daniel Átila de Andrade Medeiros Barbosa1; César Augusto Sanita Viana1

1. Centro Universitário São Camilo, Curso de Medicina, São Paulo, SP, Brasil
2. Hospital Geral de Carapicuíba, Serviço de Cirurgia Geral, Carapicuíba, SP, Brasil

Endereço para correspondência

Bárbara Freitas Franchi
E-mail: med.barbarafranchi@gmail.com / bruno22med@hotmail.com

Recebido em 03/12/2017
Aceito em 25/01/2018

Fonte de financiamento: nenhuma

Conflito de interesse: nenhum

Resumo

A infecção por Clostridium difficile é uma complicação comum após a disbiose intestinal ocasionada pelo uso abusivo de antibióticos. Apresenta elevada importância médica devido às altas taxas de recorrência e morbidade. O transplante de microbiota fecal é uma alternativa eficaz para o tratamento da infecção recorrente e refratária pelo C. difficile e consiste na introdução da microbiota intestinal de um doador saudável em um paciente portador desta infecção. O mecanismo fisiológico exato pelo qual o transplante de microbiota fecal altera a microbiota intestinal não está tão bem estabelecido, mas é evidente que restaura a diversidade e a estrutura da microbiota promovendo aumento da resistência à colonização pelo C.difficile. Diversas vias de administração do transplante estão sendo estudadas e utilizadas de acordo com as vantagens apresentadas. Todas as formas de aplicação apresentaram elevada taxa de cura, sendo a via colonoscópica a mais utilizada. Não foram documentados complicações e efeitos adversos relevantes, e seu custo benefício em relação ao tratamento convencional se mostrou vantajoso. Apesar da sua eficácia é pouco utilizado como terapia inicial, sendo necessários mais estudos para firmar essa terapêutica como primeira opção no caso de infecção por Clostridium difficile refratária e recorrente.

Palavras-chave: Transplante de Microbiota Fecal. Clostridium difficile. Enterocolite Pseudomembranosa. Antibacterianos.

INTRODUÇÃO

Clostridium difficile é um bacilo gram-positivo anaeróbio obrigatório que faz parte da microbiota intestinal, tanto do homem como de outros animais1. Foi isolado pela primeira vez em 1935 e assim denominado devido às dificuldades encontradas para realização de sua cultura. Em 1978, foi identificado como principal agente causador da colite pseudomembranosa, sendo o sigmoide e o reto os principais locais de acometimento2. Os principais fatores de virulência são suas exotoxinas, a enterotoxina A e a citotoxina B. Elas são responsáveis pela destruição do epitélio intestinal e lesão da mucosa3.

Nos últimos anos houve uma dramática mudança na epidemiologia da infecção causada pelo Clostridium difficile (ICD) . Atualmente é considerada como um problema global de saúde pública. No início do ano 2000, foi reportado um aumento nos casos de infecção severa por C. difficile, com alta taxa de mortalidade. Esse incremento na taxa de mortalidade se deve principalmente ao acometimento de idosos e ao aumento do uso de antibióticos da classe das fluoroquinolonas. A epidemia foi ocasionada pelo surgimento de uma cepa hipervirulenta, que é altamente resistente aos antibióticos mais comumente utilizados no ambiente hospitalar, a NAP1/BI/0274.

A infecção causada pelo C. difficile é a forma mais comum de diarreia nosocomial associada ao uso de antibióticos, em pacientes idosos e internados. A maioria dos pacientes hospitalizados infectados são portadores assintomáticos e servem como reservatório silencioso para a continuação da disseminação no ambiente hospitalar5. A transmissão do C. difficile ocorre por via fecal-oral, pessoa-pessoa, através de fômites e de instrumentos do mobiliário hospitalar. Os esporos bacterianos permanecem no ambiente por períodos prolongados e resistem à maioria dos desinfetantes comercializados6.

Os principais fatores de risco são idade maior do que 65 anos, uso de laxativos, inibidores da bomba de prótons ou histamina, quimioterapia, cirurgias gastrointestinais, hospitalização prolongada e principalmente o uso de antibióticos. Historicamente a clindamicina, as cefalosporinas, as penicilinas e mais recentemente as fluoroquinolonas são os antibióticos mais implicados nessa infecção7. Entretanto, qualquer antibiótico pode predispor à colonização pelo C. difficile, inclusive o metronidazol e a vancomicina, medicações de primeira linha no seu tratamento8.

O quadro clínico típico é de diarreia aquosa com vários episódios ao dia (>3 evacuações/dia), dor abdominal que melhora após a evacuação, febre baixa e leucocitose. Os casos mais graves podem evoluir com megacólon tóxico e perfuração intestinal, dessa maneira elevando muito a taxa de mortalidade. As complicações incluem: hipoalbuminemia, desidratação e desnutrição7. O diagnóstico é baseado na apresentação clínica (presença de diarreia ou íleo) e na detecção microbiológica do C. difficile nas fezes (detecção das toxinas A e B por PCR ou coprocultura)3. Para a escolha do tratamento correto, é importante classificar a gravidade da doença (Tabela 1)9.

 

 

A maioria dos trabalhos e guidelines estabelecem os esquemas terapêuticos com base no quadro clínico, severidade, risco de recorrência e complicações. Os dois medicamentos mais utilizados são o metronidazol e a vancomicina. A tabela 2 ilustra o esquema atualmente utilizado10.

 

 

No Brasil são escassos os estudos sobre a infecção por C. difficile, geralmente atribuído à dificuldade de acesso aos exames para detecção da bactéria, principalmente no sistema público de saúde, tratandose, portanto, de uma doença subdiagnosticada em nosso país11.

Em recente guideline da European Society of Clinical Microbiology and Infectious Diseases (ESCMID)12, os autores mantiveram a recomendação para o metronidazol como medicação de primeira escolha e a vancomicina como segunda opção. A fidaxomicina (Fid) foi acrescentada como opção terapêutica, porém com o mesmo grau de recomendação que a vancomicina. Nos EUA, a Fid também é aceita como opção no tratamento. A medicação ainda não é comercializada no Brasil11. A resposta precária ao tratamento padrão com vancomicina oral ou metronidazol acarreta altas taxas de recorrência, girando em torno de 30%. Após dois ou mais episódios de infecção por C. difficile o risco estimado de recorrência com a terapia antimicrobiana aumenta em até 60%12.

Em busca de um tratamento mais eficaz e adequado para os episódios recorrentes e refratários, os pesquisadores retomaram uma prática chinesa datada do quarto século, conhecida como Transplante de Microbiota Fecal (TMF). Apesar de muito antigo, o TMF foi cientificamente relatado pela primeira vez em 1958, época em que foi utilizado com sucesso no tratamento de quatro pacientes com colite pseudomembranosa. Apesar da sua aparente eficácia, o TMF começou a ser largamente estudado e incorporado na prática clínica apenas nos últimos dez anos13.

O TMF consiste em introduzir a microbiota intestinal de um doador saudável, em um paciente portador de ICD com o objetivo de restaurar a sua microbiota14. Numerosos relatos de casos, estudos retrospectivos e ensaios clínicos randomizados têm demonstrado os benefícios do TMF em pacientes com infecção severa ou recorrente por C. difficile. As taxas de cura podem chegar a 100% em alguns trabalhos, porém com taxa média de 87 a 90% nos mais de 500 casos descritos na literatura15.

O doador para esse tipo de tratamento geralmente é um familiar ou conhecido que antes de ser escolhido para o transplante passa por uma investigação minuciosa para vários patógenos16. As vias de administração do TMF podem ser: nasojejunal, nasogástrica, endoscópica, através de enemas ou colonoscópica. A escolha da via depende da viabilidade do local de realização, da experiência do médico e da segurança oferecida ao paciente4.

O objetivo deste trabalho é caracterizar e discutir as principais formas de aplicação do TMF, suas indicações, as barreiras existentes e a eficácia quando utilizado como alternativa terapêutica para a infecção pelo Clostridium difficile.

 

MÉTODOS

Para a elaboração desta revisão foram pesquisados artigos acoplados na base de dados eletrônica PubMed, Lilacs e no portal SciELO. A pesquisa consistiu na utilização dos seguintes descritores: "Enterocolitis, pseudomembranous" "OR" "Clostridium difficile", "AND" "fecal microbiota transplantation". A busca foi limitada a estudos realizados em seres humanos maiores de 19 anos de idade e publicados em inglês e português nos últimos cinco anos.

Dois pesquisadores independentes revisaram integralmente os textos e elegeram como necessários para a revisão os que possuíam maior evidência em relação ao tema e excluíram os que não estavam de acordo com o objetivo e/ou que tangenciassem o assunto proposto. As referências bibliográficas dos artigos selecionados para leitura também foram incluídas.

 

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A microbiota intestinal e seu desequilíbrio, chamado disbiose, têm papel crucial na fisiopatologia da infecção por C. difficile. Durante a última década, a importância da microbiota intestinal tem ganhado relevância, sendo a mesma considerada um órgão4.

Um estudo longitudinal analisou a microbiota intestinal de doadores e receptores do TMF uma semana após a realização do procedimento e novamente após um ano. Todos os pacientes submetidos ao tratamento foram considerados curados da infecção por C. difficile. Neste estudo também foi observada a redução da diversidade da microbiota intestinal um ano após o TMF em comparação à microbiota do doador saudável e aumento da mesma em relação à microbiota pré-TMF. Foi constatado que houve aumento da microbiota logo após o tratamento e que a mesma manteve-se estável durante o primeiro ano pós-transplante17.

Em relação aos organismos colonizadores, apenas os filos Firmicutes e as Proteobacterias apresentaram mudanças significativas. Dentro dos Firmicutes encontram-se as bactérias da ordem dos Clostridiales. Esta ordem de bactéria apresenta-se em quantidade reduzida na microbiota de pacientes com infecção por C. difficile (12,8%), e elevada nos doadores (70%). Após o TMF houve um aumento significativo dessa bactéria (55%) nos receptores. O Clostridium difficile pertence a esta ordem, porém em uma microbiota saudável ele não deve estar presente ou, caso presente, deve estar em baixíssima concentração. O que se observa nos pacientes com infecção aguda, é que as espécies não patogênicas dos Clostridiales estão em concentração reduzida, facilitando assim a colonização pelo C. difficile17. No mesmo estudo foi observado o efeito protetor da mucosa realizado por bactérias produtoras de butirato contra a colonização pelo C. difficile, e que o número reduzido dessas bactérias na microbiota de pacientes com a infecção recorrente por C. difficile pode ser um dos motivos para as frequentes recorrências.

Em outro estudo, foi realizada a análise da composição fecal da microbiota e dos ácidos biliares de 12 pacientes com infecção recorrente por C. difficile antes e depois do tratamento com o transplante de microbiota fecal. Foi observado que o uso de antibióticos extermina parte da microbiota responsável pela metabolização dos ácidos biliares primários em secundários no intestino. Os ácidos biliares secundários são responsáveis pela inibição da germinação e colonização do C. difficile na mucosa intestinal e a ausência deles facilita o processo infeccioso. O TMF causa rápida restauração da microbiota metabolizadora do ácido biliar primário, normalizando a quantidade disponível de ácido biliar secundário, sugerindo assim a razão da eficácia do transplante18.

Em 2010, membros de várias sociedades médicas especializadas, formaram um grupo de trabalho com o objetivo de elaborar um consenso sobre o tratamento15. Conforme descrito pelo grupo de trabalho as principais indicações de tratamento para o TMF são:

1. Infecção recorrente por C. difficile:

A) Três ou mais episódios de infecção por C. difficile leves a moderados e falha de um ciclo de seis a oito semanas com vancomicina com ou sem um antibiótico alternativo, por exemplo, rifaximina, nitazoxanida ou fidaxomicina.

B) Ao menos dois episódios de infecção por C. difficile resultando em hospitalização e associados com morbidade significativa.

2. Infecção por C. difficile moderada que não responde à terapia padrão (vancomicina ou fidaxomicina) durante ao menos uma semana.

3. Infecção por C. difficile grave (mesmo fulminante) sem resposta à terapia padrão após 48 horas.

As diretrizes de tratamento do C. difficile do American College of Gastroenterology de 2013, também recomendam o TMF como uma alternativa terapêutica para casos recorrentes de infecção por C. difficile que não responderam a um regime de tratamento com vancomicina19.

As evidências que comprovam o TMF para tratamento de doença grave e complicada (megacólon tóxico) são menos amplas e com menos casos clínicos publicados, porém, relatos de casos sugerem que pode ser seguro e efetivo mesmo em pacientes críticos. Pacientes com infecção grave por C. difficile têm maior risco de resultados negativos e decidir entre TMF e cirurgia, ou outra modalidade terapêutica, deve ser realizado com cautela15.

Um aspecto essencial do sucesso do transplante de microbiota fecal é a identificação de um doador saudável. Diversas sociedades médicas disponibilizam diretrizes para seleção de doadores. A maioria não estipula um limite de idade, porém, a grande maioria dos selecionados está entre 18 e 60 anos de idade. O doador pode ser um parceiro íntimo de longa data, amigo ou voluntário não relacionado20. Um único estudo prospectivo faz considerações sobre as características do doador e as diferentes composições da sua microbiota fecal. Esse estudo conclui que a microbiota intestinal humana sofre mudanças com o passar dos anos, ocorrendo um decréscimo no número de firmicutes e actinobactérias e um acréscimo na quantidade de bacterioides além de uma redução da diversidade global. Apesar dessas mudanças, não foram encontradas alterações clínicas significativas nos resultados dos TMF realizados com amostras de diferentes idades20. Como não existem diferenças, podemos considerar a elegibilidade de um doador em qualquer idade, desde que tenha o screening efetuado corretamente e não apresente contraindicações para a doação20.

A preparação do material ainda não é uniforme e diferentes estudos têm como objetivo encontrar a melhor opção para o paciente. Em geral o material deve ser diluído, homogeneizado (usando misturador, esforço manual, ou outro método) e filtrado quando necessário (por exemplo, gaze, filtro de café, filtro comum) até uma forma que possa ser administrada. Este espécime processado pode ser tanto infundido diretamente no trato gastrointestinal, como ser centrifugado, colocado em cápsulas de gelatina e engolido. Diversas séries de estudos descreveram o congelamento da microbiota fecal para seu uso em outro momento15.

Como não há um consenso claro sobre a melhor forma de preparação das fezes. As vias de administração são bem variadas e incluem o trato gastrointestinal superior (por endoscopia, cateter nasogástrico ou nasojejunal ou por ingestão de pílulas)21-24 e o trato gastrointestinal inferior (por colonoscopia no cólon proximal, por enema e retossigmoidoscopia no cólon distal, ou abordagem combinada)5,25-34. Ensaios clínicos foram realizados comparando as diversas formas de aplicação do TMF, seus resultados, vantagens e desvantagens. O importante é que todas as formas estudadas foram mais eficientes do que o tratamento com antibióticos15. A via por enema apresentou alta taxa de resolução dos sintomas, entretanto, foi necessário na maioria dos casos a repetição do procedimento por diversas vezes até obtenção da melhora clínica. A severidade da infecção foi um fator decisivo para o desfecho. Casos mais graves foram mais refratários ao tratamento. Não foram observados efeitos adversos, a aplicação é simples e segundo alguns relatos pode ser realizado pelo próprio paciente em ambiente domiciliar29.

A via nasogástrica é eficaz e segura para pacientes com contraindicações para a via colonoscópica, e possui boa aceitação apesar dos pacientes com idade avançada apresentarem certa repugnância. A maior preocupação é o vômito e a aspiração do conteúdo infundido12. No único estudo brasileiro sobre a realização do TMF, dez pacientes foram submetidos ao tratamento por enteroscopia oral com taxa de cura de 90%. Acreditase que a via enteroscópica também seja uma opção a se considerar para pacientes com contraindicações para outras formas de aplicação. Devido à necessidade de sedação evita-se o desconforto físico e moral da infusão nasogástrica do material fecal12.

A via colonoscópica é a mais utilizada e possui a vantagem de permitir visualização direta da área acometida, infusão de grande volume de material fecal e melhor retenção do que o enema. O preparo realizado e a necessidade de sedação são prejudiciais em pacientes altamente debilitados, além de existir o risco de perfuração quando a mucosa apresenta uma inflamação abundante. O risco de perfuração pode ser minimizado com a experiência e habilidade do endoscopista5.

Pensando na melhor forma de restaurar completamente a microbiota de todo o trato gastrointestinal, um estudo prospectivo selecionou 27 pacientes com infecção recorrente por C. difficile para receberem o TMF por via combinada (enteroscopia e colonoscopia). Todos os pacientes selecionados apresentaram redução do número de evacuações e negativação das toxinas do C. difficile na amostra fecal após apenas uma infusão. O tempo médio de resolução foi de três dias. Os autores sugerem alta taxa de resolução quando o procedimento é realizado por via combinada. Um revés do estudo foi o alto custo devido à utilização de duas técnicas, mas pensando no seu elevado potencial curativo torna-se um procedimento com excelente custobenefício33.

Na análise dos resultados os autores concluíram que, a infusão das fezes abaixo do ângulo de Treitz pode reduzir a degradação da microbiota pelo ácido gástrico e pelas enzimas pancreáticas, e que a administração intrajejunal pode promover um contato de bactérias benéficas com a superfície da mucosa intestinal até o ceco. A técnica possibilita a infusão de grande volume de material fecal, sem rápida eliminação pelo reto, além de diminuir o risco de aspiração e regurgitação oral33.

Dois estudos realizaram a preparação de cápsulas congeladas de TMF, e administraram em pacientes com infecção recorrente por C. difficile com deglutição preservada. Os dois estudos apresentaram uma taxa de cura próxima dos 90%. As cápsulas orais possuem taxa de resolução similar aos outros meios de administração, porém com maior tempo para obtenção da melhora clínica. O método possui como vantagens: fácil armazenamento, custo reduzido, eficácia comprovada, poucos efeitos adversos, fácil administração, confortável para o paciente, não invasivo e seguro para pacientes gravemente enfermos. A única contraindicação é a incapacidade do paciente em deglutir, aumentando o risco de broncoaspiração21,23.

O congelamento das amostras permite a triagem dos doadores com antecedência e a facilidade do armazenamento permite a investigação dos doadores para possíveis infecções virais incubadas. Um ensaio clínico realizado com 232 pacientes com recorrência ou refratariedade ao tratamento padrão, dividiu a amostra em dois grupos, uma com 108 pacientes que receberam o transplante resfriado, e outra com 111 pacientes que receberam o transplante fresco por enema. Os resultados demonstraram que não houve diferença clínica entre as duas formas de preparo, ambas possuem boa taxa de resolução. Considerando as vantagens de fornecer o TMF congelado/resfriado, seu uso é uma opção considerável neste cenário31.

Nos últimos anos foram poucos os relatos de casos publicados em relação à eficácia do TMF nos pacientes imunocomprometidos. No começo do século essa parcela de doentes havia sido excluída dos grandes ensaios clínicos devido ao desconhecimento e temor das complicações dessa nova forma de tratamento, principalmente em relação a possível translocação bacteriana, em um contexto de depressão das defesas da mucosa intestinal35,36.

O impacto econômico da infecção por Clostridium difficile no Brasil não foi estimado, pela dificuldade de estabelecimento do diagnóstico e pela falta de documentação. Nos EUA estima-se que anualmente a infecção por C. difficile custe para o governo uma quantia entre um e 3,6 bilhões de dólares. Esses custos tão altos são resultado das hospitalizações, gastos com medicamentos e cuidados pós-tratamento37. Recentes estudos compararam as diferentes formas de tratamento da infecção recorrente por Clostridium difficile com o TMF. Em todos os trabalhos, o TMF foi mais custoefetivo e clinicamente eficiente do que o tratamento com metronidazol, vancomicina e fidaxomicina (não disponível no Brasil)38. Um estudo francês comparou o custo-efetividade do TMF por via colonoscópica, duodenal e enema em relação ao tratamento com vancomicina e fidaxomicina. Os autores concluíram que o TMF em todas as formas é mais custo efetivo que os outros tratamentos e que existe um custo-efetividade melhor pela via colonoscópica do que nas outras. O enema possui característica de resolução da infecção e custo muito próxima da via colonoscópica, e por ser mais seguro para os pacientes os autores concluíram ser a via recomendada no trabalho realizado39.

Apenas um estudo comparou o TMF (via colonoscopia) como forma de tratamento inicial da infecção por Clostridium difficile em relação aos outros esquemas primários (metronidazol e vancomicina). O TMF foi mais caro e mais efetivo que o metronidazol e mais barato e mais efetivo que a vancomicina. Dessa maneira praticamente excluiu a vancomicina como opção terapêutica para o tratamento inicial da infecção40. Não foram encontrados artigos que avaliassem o custo da ingestão de cápsulas de TMF e da técnica de criopreservação das fezes, o que poderia fornecer dados referentes aos custos financeiros do procedimento, em relação aos tratamentos já consolidados.

São raras as reações adversas ao TMF. A maioria descreve uma sensação de desconforto gastrointestinal e que apresenta resolução em até 12 horas. São poucos os relatos de casos sobre o assunto, porém nenhum atribui diretamente ao transplante as complicações apresentadas. A maioria dos pacientes que apresentaram efeitos adversos eram portadores de doença intestinal pregressa, como doença inflamatória intestinal ou diverticulite41,42.

Apesar da comprovada eficácia do TMF, ainda existe pouca recomendação clínica. Um estudo focou nesta questão e constatou que até 94% dos pacientes estariam dispostos a aceitar o TMF como tratamento caso fosse prescrito pelo seu médico e que existe uma predisposição dos doentes em aceitar o método colonoscópico, sendo que a pílula inodora foi à primeira escolha43. Através desta constatação e com objetivo de elucidar o motivo da pouca prescrição do TMF, outro estudo similar, porém agora voltado para a classe médica, aplicou 139 questionários sobre a técnica, em que 65% dos médicos responderam que não indicariam o TMF. A principal justificativa foi desconhecer a indicação e acreditarem na repugnância do paciente ou o fato de não existir um protocolo e uma logística adequada em seu local de trabalho44.

 

CONCLUSÕES

O transplante de microbiota fecal (TMF) é uma técnica de comprovada eficácia, baixo custo quando comparada ao tratamento convencional e com poucos efeitos adversos. Os casos refratários e graves são as principais indicações do transplante de microbiota fecal. Todas as formas de aplicação apresentaram elevada taxa de cura, sendo que a via colonoscópica foi a mais utilizada.

Em face da gravidade da infecção por Clostridium difficile não é surpreendente que os pacientes considerem o TMF como uma via alternativa de tratamento. A educação e o envolvimento do paciente no processo decisório são fatores cruciais para aceitação da técnica. É perceptível através das pesquisas que o médico possui grande influência na escolha do tratamento a ser realizado e caso prescreva existe alta probabilidade de aceitação. A falta de indicação esbarra no preconceito em relação ao procedimento.

A falta de regulamentação e de protocolos institucionais ocasiona insegurança e é uma barreira que precisa ser ultrapassada. O adequado uso desta técnica só será factível através da divulgação de sua efetividade, conhecimento das vias de administração e aceitação dos profissionais de saúde.

 

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